A visão da ANIL sobre o Concurso Queijos de Portugal

Sob o mote de desenvolver a imagem, promover a ‘cultura’ de queijo e melhorar o produto, este evento anual da Anil constitui-se, desde 2009, como uma referência nacional e um momento primordial de comunicação com os consumidores.

Texto e Fotos de: Maria Cândida Marramaque (ANIL – Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios)

Originalmente publicado na Tecnoalimentar Nº 20.

Voltemos a 2009, ano em que o sector apresentava uma situação especialmente critica, fruto não só do reflexo da crise económica internacional, mas também do consequente abrandamento do consumo de produtos alimentares e em particular daqueles com valor acrescentado, com a diminuição dos consumos per capita de produtos lácteos.

Assim, e no sentido de tentar contrariar de alguma forma as tendências percebidas, foi idealizado o certame “Três dias com Queijo”. Esta iniciativa, inserida no contexto da Agrovouga, pretendeu dar resposta ao lento desenvolvimento do mercado, centrando-se na sensibilização de consumidores, distribuição, líderes de opinião para as grandes vantagens nutricionais desta categoria de produtos, para as suas propriedades sensoriais e para a possibilidade de combinação com outros produtos extremamente relevantes da nossa gastronomia, como o vinho.

Era sobretudo necessário demonstrar e potenciar o carácter lúdico, “gustativo” e até estético do queijo tanto na alimentação quotidiana, na restauração, como no ponto de venda. Com esta aposta, iniciava-se uma “cruzada” a favor, não só de toda a fileira láctea, mas também da economia nacional, pelo estímulo da produção local pela via da qualidade, da diferenciação e da relevância, mesmo que para nichos de mercado. No culminar destes 3 dias com Queijo, apresentava-se o concurso “Melhor Queijo”, atualmente designado “Concurso Queijos de Portugal”.

O desafio lançado foi bem acolhido pela indústria nacional, dado que, unicamente queijos elaborados em Portugal, procedentes de estabelecimentos devidamente autorizados, podem ser apresentados a Concurso. Inicialmente, foram definidas 5 categorias (queijo de vaca, queijo flamengo, queijo de ovelha, queijo de cabra e queijo de mistura) que, paulatinamente, foram evoluindo até às 22 do ano passado, com a criação da categoria Novos Sabores – Frescos.

Esta evolução resulta da natural adesão dos produtores e da necessidade de aproximar e equilibrar a avaliação sensorial entre as referências inscritas por parte do júri do Concurso.

Com data marcada para o mês de outubro de cada ano e após a abertura das inscrições, podem, de acordo com o Regulamento do Concurso Queijos de Portugal, participar os queijos que sejam de elaboração própria da empresa concorrente, podendo a mesma participar nas categorias que entenda, mas com o máximo de duas referências por categoria.

As amostras submetidas a concurso, são cuidadosamente recebidas pela coordenação do concurso, que verifica toda a documentação, classifica os queijos por categorias, anula qualquer possibilidade de identificação e armazena os mesmos, recorrendo a um procedimento de identificação numérico. Consideramos como fundamental assegurar o anonimato da amostra em todas as fases do Concurso garantindo, assim, que a prova sensorial será totalmente cega e sem favorecimentos de qualquer espécie.

O júri selecionado, entre os 16 e os 24 elementos, é proveniente de diferentes meios, nomeadamente: representantes do sector, dos organismos de controlo e certificação, de instituições de ensino, da restauração e gastronomia, distribuição e dos meios de comunicação. Também aqui fazemos questão de ir renovando ou alternando os elementos que constituem o Júri.

Esta medida permite o alargamento da “família” de júri mas, mais do que alargar, permite a não viciação dos elementos, por conhecimento adquirido de outras edições. Os dias de prova são, sem dúvida, um dos momentos altos do concurso. São dias em que, além da avaliação concreta, é possível aprender ao ritmo da apresentação das amostras.

O concurso é realizado em duas fases distintas – Fase Prévia e Final –, com provas distintas: a visual e a gustativa. Na fase prévia o júri é dividido em equipas, dependendo do número de amostras a concurso. Os queijos são distribuídos por séries de amostras e avaliados por uma das equipas de júri. A avaliação dos queijos inicia-se por uma Fase Visual, seguida da Fase Olfato-gustativa, registando os resultados em ficha específica para cada uma das fases.

Os três queijos que obtenham as melhores pontuações em cada uma das categorias a concurso serão selecionados para a final. Na fase final, todos os queijos selecionados são avaliados por todos os membros do Júri. A metodologia, fichas de prova e ponderações, seguem as mesmas regras que as estabelecidas para a Fase Prévia. O Queijo Vencedor de cada categoria é o que obtiver maior pontuação global.

Em caso de empate entre dois ou mais queijos, o vencedor é o que obteve maior pontuação na Fase Olfato-gustativa. Se, ainda assim se mantiver o empate, o vencedor é eleito por deliberação do Júri. A revelação dos vencedores, é o momento mais esperado. A mesma é feita em cerimónia própria, que queremos cada vez mais digna e participada. Aos vencedores de cada categoria é permitida a utilização do logótipo da categoria em toda a comunicação comercial e sobre os rótulos dos queijos.

As 10 edições já realizadas permitem concluir que houve uma evolução muito positiva e muito além daquilo a que nos propúnhamos. Esta evolução pode ser vista de diferentes formas:

Desde logo, pelo número de empresas que concorrem. Iniciamos com 27 e atualmente, apesar das oscilações, mantemos as 57.

Pelo número de queijos a concurso que, dos surpreendentes 57 iniciais, conseguimos, no passado ano, sentir um novo recorde, num total de 220 inscrições.

A um número crescente de amostras, podemos seguramente fazer corresponder uma maior qualidade do queijo, a inovação gerada traduzida nas novidades apresentadas, bem como um maior cuidado na apresentação.

Destacamos a vontade concreta em participar, e ganhar. Parte do retorno que nos chega, é que os vencedores vêm o seu prémio reconhecido e a sua notoriedade aumentar. Há um maior assédio por parte da distribuição e do comércio de especialidade, e maior participação e destaque em eventos e na imprensa.

É bom ver confirmado o mérito dos operadores das diferentes indústrias. Perceber que há lugar, na cerimónia de entrega de prémios, para o reconhecimento da(o)s queijeira(o)s, quando estes recebem em mãos o prémio. Perceber que outras indústrias, reservam um momento do dia seguinte um convívio interno, onde o prémio é partilhado. É, para a organização, um desafio, manter o “Concurso Queijos de Portugal” com os olhos postos no futuro; olhar para as amostras que chegam e ver as possibilidades que se abrem; ouvir os industriais e descobrir outras.

Manter o setor dinâmico, interessado, participativo e reconhecido. Deixamos a certeza, de que, para a Associação, é sempre uma grande satisfação preparar o “Concurso Queijos de Portugal”. São dias trabalhosos, mas sempre recompensadores, um “pleno” trabalho/prazer. Cumprem com a sua função: cada vez mais se fala de queijo, cada vez mais se sente que o queijo português está melhor, mais bonito e que apresenta mais referências.