Insetos Edíveis – perspetivas da segurança alimentar

Artigo Técnico

O crescimento acentuado da população mundial tem conduzido ao aumento do consumo de carne (proteína) e em algumas áreas geográficas a uma incapacidade de produção para suprir estas mesmas necessidades. Prevê-se ainda que até 2050 o consumo de carne possa aumentar para valores a rondar os 75% comparativamente à época de 2005/2007 (Alexandratos et al., 2012).

Atualmente, a criação de animais de produção pecuária ocupa uma percentagem de 70% do terreno agrícola que se encontra disponível no nosso planeta, logo é imperativo a criação de estratégias para responder às necessidades alimentares das populações (Steinfeld et al., 2006). Uma das alternativas propostas consiste no consumo de insetos edíveis, isto é, comestíveis, que complementam o cardápio de aproximadamente dois bilhões de pessoas e têm sido parte da dieta humana desde os tempos remotos. A entomofagia (consumo de insetos pelo Homem) é praticada em muitas localizações geográficas mais predominantemente na Ásia (Figura 1), em África e na América Latina (Halloran, 2013).

Contudo, apenas recentemente a entomofagia tem atraído a atenção dos “media”, assim como das instituições de investigação, de chefes de cozinha e dos membros da indústria alimentar, além dos legisladores e agências de regulamentação na área alimentar. O Programa de Insetos Comestíveis da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) também tem avaliado o potencial de aracnídeos (aranhas e escorpiões) para a alimentação animal e humana, uma vez que, por definição, estes não são insetos (Halloran, 2013).

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Requisitos Legais na União Europeia

Segundo os requisitos legais que se encontram em vigor, e pelos quais a Comunidade Europeia se rege (Regulamento (CE) nº 178/2002 do Parlamento Europeu e do Conselho), deve-se proceder de acordo com o princípio da precaução, ou seja, considera-se que se existirem potenciais riscos associados ao consumo de um novo alimento (neste caso associado à ingestão de insetos) uma avaliação de pré-risco comercial terá que ser efetuada (Belluco et al., 2013).
Contudo, a definição de novo alimento é controversa, já que de acordo com o Regulamento (CE)n.º 258/1997, os novos alimentos são "alimentos e ingredientes alimentares que ainda não tenham sido utilizados para consumo humano de forma significativa na Comunidade”.

Além disso, o novo alimento tem de pertencer a uma das seguintes categorias:

- alimentos e ingredientes alimentares com uma nova estrutura molecular primária ou intencionalmente modificada;

- alimentos e ingredientes alimentares que tenham sido isolados a partir de microrganismos, fungos ou algas;

- alimentos e ingredientes alimentares que tenham sido isolados a partir de plantas e ingredientes alimentares isolados a partir de animais, exceto para alimentos e ingredientes alimentares obtidos por meio de propagação tradicional ou práticas de criação e ter um histórico de uso de alimentos seguros;

- alimentos e ingredientes alimentares que tenham sido objeto de um processo de produção não utilizado atualmente, se esse processo deu origem a alterações significativas na composição ou na estrutura dos alimentos ou ingredientes alimentares que afetam o seu valor nutricional, metabolismo ou teor de substâncias indesejáveis.

No Regulamento (CE) nº 853/2004, relativo a géneros alimentícios de origem animal, as rãs e caracóis, mas não insetos, são mencionados entre os alimentos “não convencionais” de origem animal. Consequentemente, sob um ponto de vista jurídico, a adequação dos insetos para o consumo humano é um desafio (Belluco et al., 2013).

Embora estes animais não sejam consumidos em grande escala no continente europeu, em alguns países a sua comercialização já é uma prática (Belluco et al., 2013). Assim, um novo regulamento que já se encontra disponível enquanto projeto, e provavelmente irá considerar os insetos na categoria "alimentos tradicionais de países de terceiro mundo, ou seja, um novo alimento com antecedentes na sua utilização por parte destes países, o que significa que o alimento em questão continua a fazer parte da dieta diária da população de um país”. Para tal, terá que existir documentação datada bem como deverá ser provada a prática e consumo de insetos por parte destas mesmas populações. Em caso de aprovação por parte do mercado, a importação de produtos contendo insetos deve obedecer à legislação imposta pela União Europeia (UE). Consequentemente, países exportadores terão que comprovar que cumprem os requisitos padronizados pelos países aos quais estão a fornecer o produto uma vez que o incumprimento pode limitar o acesso dos mesmos à UE (Regulamento (CE) n.º 178 /2002).

Contribuição dos Insetos para a Soberania Alimentar

O aumento da população, a urbanização e o crescimento da classe média têm elevado as necessidades globais por alimentos, especialmente no que diz respeito às fontes proteicas de origem animal. A produção tradicional de alimentos para nutrição animal como farinha de peixe, soja e outros grãos, necessita ser repensada em termos de eficiência de recursos e ampliação do uso de fontes alternativas (Halloran, 2013). Por volta de 2030, teremos que alimentar nove mil milhões de habitantes, juntamente com outros milhares de milhões de animais criados anualmente para fins alimentares, recreativos ou como estimação. Além do mais, os efeitos colaterais como a poluição do solo e dos recursos hídricos provenientes da produção pecuária intensiva e o uso extensivo de pastagens intensificam a desflorestação e desertificação de áreas florestais juntamente com os fenómenos de mudanças climáticas e outros impactos ambientais destrutivos. Assim, urge encontrar novas soluções e colocá-las em prática (Halloran, 2013).
Uma das maneiras existentes para se resolver o problema de soberania alimentar é a criação de insetos.
Contudo, o consumo destes alimentos também não é isento de perigos.

Perigos Associados ao Consumo de Insetos

Alergias

A alergia alimentar pode definir-se por uma reação adversa originada por uma resposta imunitária específica que ocorre devido à exposição a determinado alimento ou componente deste (Boyce et al., 2010).
Os sinais associados a uma alergia alimentar podem variar significativamente, desde uma simples urticária, à mais complexa reação anafilática. Poucos são os estudos científicos até agora publicados referentes a alergias alimentares causadas por insetos edíveis, sendo importante realçar que sendo os hábitos alimentares variáveis de acordo com as culturas e os locais do mundo, o risco acaba por ser diferente de acordo com a área geográfica (Sampson et al., 2006).
Um dos exemplos deste tipo de reações está associado ao corante obtido através do corpo seco da fêmea de Dactylopius coccus. Este corante possui diversas aplicações, sendo usado em sumos, iogurtes, gelados e doces, e em produtos de cosmética como sombras de olhos e batons. As reações descritas não se prendem propriamente com o inseto em si, mas sim com resíduos de proteína existentes no corante obtido a partir dele (Di Cello et al., 1999).
Outro exemplo consiste numa prática comum na China referente à ingestão do conhecido “Bicho-da-seda”, tendo sido estimado que todos os anos mais de 1000 pessoas desenvolvem reações anafiláticas, e que 50 destas necessitem de cuidados intensivos, após a sua ingestão (Ji et al., 2008).

Perigos Microbiológicos

No que diz respeito aos perigos microbiológicos, ainda são raros os estudos, pelo que a informação encontrada centra-se fundamentalmente no papel dos insetos como vetores na transmissão de doenças. Conclui-se que são necessários cuidados, e é fundamental o correto manuseamento em todo o processo de preparação e consumo, para que os riscos associados sejam evitados (Belluco et al., 2013).
A presença de perigos parasitários foi recentemente documentada num estudo sobre trematódes intestinais transmitidos através de alimentos no Sudeste da Ásia (Chai et al., 2009). Neste estudo foram isoladas 65 espécies de trematódes intestinais. O Sudeste da Ásia é uma área geográfica onde o consumo de insetos é bastante comum, e onde já foram encontrados estes parasitas, nomeadamente na Malásia e na Índia (Belluco et al., 2013).

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Perigos Químicos

Quando pensamos em perigos químicos, automaticamente pensamos nos pesticidas que são usados para o controlo de insetos, e no potencial risco para a saúde humana e ambiental que estes perigos constituem. Esta ideia é suportada por várias ocorrências, como uma na Tailândia, em que após desinfestação massiva os insetos foram postos no mercado para consumo, causando problemas de saúde aos consumidores após a sua ingestão (De Foliart, 1999).
Os metais pesados devem ser considerados sobretudo tendo em conta que os países que mais consomem insetos são altamente industrializados e apresentam elevados níveis de contaminação ambiental (Belluco et al., 2013). Além disso, os metais pesados podem sofrer bioacumulação no corpo do inseto (Saeed et al.,1993). O modo como decorre a preparação e a confeção dos insetos também pode influenciar este risco. Os perigos químicos dependem sobretudo, na maioria das situações, do habitat dos insetos e do local de alimentação, devendo ambos os fatores ser controlados (Belluco et al., 2013).

Perspetivas Futuras

A Consulta Técnica Especializada da FAO, para garantir a segurança alimentar e avaliar o potencial dos insetos como fonte de alimentação humana e animal, realizada em Roma, em janeiro de 2012, destacou as seguintes áreas chave para pesquisa e desenvolvimento nesta questão (Halloran, 2013):

Tecnologias de produção em massa

- Aumento da inovação na mecanização, automação, processamento e logística para reduzir os custos de produção a um nível comparado a outras fontes de alimento;

- Desenvolvimento de tabelas de alimentação para insetos e valores nutricionais de substratos;

- Realização de avaliações mais profundas sobre o ciclo de vida de uma ampla gama de espécies para permitir comparações entre insetos fontes convencionais de alimentos, tanto para uso alimentar quanto para alimento animal;

- Manutenção da variabilidade genética em viveiros para evitar colapso em sistemas de produção em massa.

Segurança de alimentos:

- Realização de pesquisas sobre o potencial alergénico de insetos edíveis para humanos e a digestibilidade da quitina (o principal constituinte do exoesqueleto dos insetos);

- Ampliação dos dados sobre valores nutricionais das espécies de insetos comestíveis e sua contribuição para a saúde humana e animal;

- Pesquisas sobre o risco de potenciais zoonoses, toxinas e metais pesados (aquando do uso de lixo orgânico como substrato) para entomofagia;

- Desenvolvimento de métodos para aumentar a conservação dos produtos.

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Legislação:

- Desenvolvimento de marcos legais e códigos voluntários que regulem a condição dos insetos como alimento para consumo humano e animal, bem como para a saúde humana e o bem estar animal em dimensão nacional e internacional (por exemplo, o Codex Alimentarius);

- Melhoramento de métodos para avaliação de riscos relacionados a produção em massa e a recolha silvestre no intuito de salvaguardar o ecossistema local de introdução de espécies exóticas e invasivas.

Educação e aceitação dos consumidores:

- Apoio a entomofagia em culturas onde ela já é prevalente;

- Realização de exaustivas pesquisas sobre a ecologia das espécies utilizadas e promovidas para consumo ou criação;

- Educação dos consumidores sobre os benefícios da entomofagia;

- Desenvolvimento de novas maneiras de integrar os insetos nas dietas de um maior espectro de consumidores por meio da criação de novos produtos baseados em insetos;

- Promoção dos insetos como suplemento alimentar para a pecuária.

Considerações Finais

Apesar da atividade de produção de insetos na Europa constituir ainda um mercado reduzido, cada vez mais surgem iniciativas para potenciar o valor destes animais como fonte proteica para a alimentação animal e humana. Hoje em dia, as produções de insetos são praticadas em pequena escala, sob forma de negócios familiares e direcionadas a mercados muito específicos. Há diversos estudos que sugerem que os insetos podem oferecer uma alternativa sustentável e de baixo custo, nomeadamente de recolha, produção e transporte.

Os custos com o uso de água potável, a emissão de gases de efeito estufa e de consumo de combustíveis fósseis, se comparados aos custos da produção pecuária convencional, são também muito inferiores. Contudo, atualmente, à escala que são produzidos os insetos na Europa, estes ainda não conseguem competir com as fontes convencionais de proteína alimentar.

Referências Bibliográficas

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Belluco S., Losasso C., Maggioletti M., Alonzi C., Paoletti M., and Ricci A. (2013), Edible Insects in a Food Safety and Nutritional Perspective: A Critical Review, Comprehensive Reviews In Food Science and Food Safety, Vol. 12: 296-313.

Chai J.Y., Shin E.H., Lee S.H. and Rim H.J. (2009). Foodborne intestinal flukes in Southeast Asia. Korean Journal Parasitology 47(Suppl):S69–102.

DeFoliart G.R. (1999). Insect as food: why the western attitude is important. Annual Reveiw Entomology 44(1): 21–50.

DiCello C., Myc A., Baker J.R. Jr and Baldwin J.L. (1999). Anaphylaxis after ingestion of carmine colored foods: two case reports and a review of the literature. Allergy Asthma Proc 20(6):377–82.

Halloran A. and Vantomme P. (2013) The contribution of insects to food security, Food and Agriculture Organization. Última actualização: 04/2013. Disponível em: http://www.fao.org/docrep/018/i3264e/i3264e00.

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Boyce JA, Assaad A, Burks AW, Jones SM, Sampson HA, Wood RA, Plaut M, Cooper SF, Fenton MJ, Arshad SH, Bahna SL, Beck LA, Byrd-Bredbenner C, Camargo CA Jr, Eichenfield L, Furuta GT, Hanifin JM, Jones C, Kraft M, Levy BD, Lieberman P, Luccioli S, McCall KM, Schneider LC, Simon RA, Simons FE, Teach SJ, Yawn BP, Schwaninger JM. (2010). Guidelines for the diagnosis and management of food allergy in the United States: report of the NIAID-sponsored expert panel. Journal Allergy Clinical Immunology 126 (6 Suppl):S1–58.

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Regulamento(CE) n.º178/2002 do Parlamento Europeu e do Conselho, 28 de Janeiro de 2002, relativo aos princípios e normas gerais da legislação alimentar, cria a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos e estabelece procedimentos em matéria de segurança dos géneros alimentícios

Saeed T, Dagga FA and Saraf M. (1993). Analysis of residual pesticides present in edible locusts captured in Kuwait. Arab Gulf J Sci Res 11(1):1–5.

Steinfeld, H., Gerber, P., Wassenaar, T., Castel, V., Rosales, M. and De Haan, C. (2006).Livestock’s long shadow. Environmental issues and options.Food and Agriculture Organization of the United Nations, Rome, Italy, 319 pp.

Catarina Alves1,Sónia Correia1, Humberto Rocha1, Teresa Letra Mateus1,2*

1Departamento de Medicina Veterinária, Escola Universitária Vasco da Gama, Av. José R. Sousa Fernandes, Campus Universitário—Bloco B, Lordemão, 3020-210 Coimbra
2Escola Superior Agrária de Ponte de Lima, Instituto Politécnico de Viana do Castelo; *tlmateus@gmail.com

In, TecnoAlimentar nº 4