Rótulos: os olhos também bebem

São um preâmbulo ao néctar: há de todas as cores, feitios e para todos os gostos. E há cada vez mais. Falamos dos rótulos, a cara do vinho.

rotulos

Maria João Reino desenhou a Quinta do Carmo, em Estremoz, 2003.

O desenho mantém-se, desde então, no rótulo dos vinhos produzidos na quinta. «Este é o meu melhor e pior trabalho», diz Paal Myhre. Melhor porque a marca se tornou numa das mais conhecidas dos portugueses.

«E pior porque os clientes nunca mais voltaram», brincaPaal Myhre é um dos designers mais experientes na área.

Pelas mãos já lhe passaram milhares de rótulos de vinhos, espumantes, brandys, vinhos do Porto e moscatéis, como este exemplar de Setúbal.

A Adega de Vinhos Fernão Pó, de Palmela, também mudou a apresentação das garrafas.

Um trabalho do consórcio Wine&ShineNum mercado cada vez mais concorrencial, as marcas precisam de chamar a atenção e uma abordagem mais divertida – pelo menos na paleta – tornou-se cada vez mais comum.

E também nos rótulos há modas, explica o designer Rita Monteiro, redatora publicitária, teve a ideia de criar o consórcio Wine&Shine. Foi ter com Paal e descobriram que já tinham trabalhado juntos sem saber – ela como copy, ele como designer – em marcas como a Casa Ermelinda Freitas. «Foi um cão que me trouxe de novo ao mundo dos rótulos».

A afirmação tem tanto de inesperada como de divertida mas foi, efetivamente, um cão – o Pintas – que trouxe Maria João Reino ao mundo da criação dos rótulos de vinhos. Na verdade, a artista plástica – que tem formação clássica em pintura decorativa – tinha feito o desenho que aparece no rótulo do vinho do Dona Maria em 2003, a convite de Júlio Bastos, produtor de vinhos da Quinta do Carmo, no Alentejo – e que hoje continua a ser usado. Depois disso, ainda passou umas férias no Uruguai, onde se apresentou e fez o rótulo do vinho uruguaio Mataojo.

Mas desde então, e até ao encontro com o cão Pintas – no ano passado –, que se tinha afastado do meio. «Em 2016, dez dias no Douro, na casa da Sandra Tavares da Silva e Jorge Serôdio Borges, da Wine&Soul [produtores de vinhos como o Pintas e Manoella], durante a época da vindimas», conta.

«Eles tinham um cão, o Pintas, que deu nome ao primeiro vinho que lançaram em 2001». Maria João conheceu o cão e, de volta a Lisboa, não o conseguia tirar da cabeça. Tanto que desenhou o Pintas – que morreu um mês depois deste encontro – e que se tornou no novo rótulo da casa [ainda não foi inserido na garrafa, está em fase de apresentação]. Os produtores de vinhos, e donos do Pintas, o cão, gostaram tanto que encomendaram a Maria João outro rótulo – para o vinho Manoella branco, produzido pela primeira vez no ano passado. «Só foram feitas duas mil garrafas», conta.

Independentemente da escala, e como trabalho gera trabalho, houve outro produtor do Dão a encomendar os seus serviços – um projeto que verá a luz do dia no início do próximo ano.

Mas o que é um bom rótulo? «Hoje em dia os rótulos são muito gráficos, os meus têm sempre uma história e muito desenho, por vezes até a carvão. Afinal, é essa a minha formação», conta Maria João, que se diz alérgica a computadores, pelo que conta com a ajuda de uma designer para concretizar as suas ideias e desenhos na “caixinha mágica”.

Se Maria João Reino é uma espécie de freelancer que tropeçou por convite na área – pela qual se apaixonou – há empresas que se dedicam unicamente à criação de rótulos e todo o universo envolvente, como a de Rita Rivotti, por exemplo. E, num mercado com cada vez mais oferta, há empresas que fazem tudo para se diferenciarem – como a Torre do Frade, com o vinho Virgo, que convida os consumidores a desenhar o seu próprio rótulo. Mas o primeiro ‘rotuleiro’ do país foi um norueguês nascido no Porto: Paal Mhyre.

Estávamos no início do milénio quando o designer Paal Myhre deixou a agência de publicidade em que trabalhava para, com um amigo, fundar a DOC, que fechou em 2009 para dar lugar ao atelier Myhre Design. «As agências de publicidade já faziam esse trabalho, mas não havia nenhuma que se dedicasse em exclusivo a isto», recorda. «Rotuleiros, éramos só nós», brinca.

Já lhe passaram milhares de rótulos pelas mãos, «entre rótulos de vinhos, brandy, cervejas, azeites, aguardentes, vinhos do Porto, espumantes e compotas», refere.

Na verdade, basta entrarmos na secção de vinhos de qualquer supermercado para nos deparamos com meia dúzia de rótulos do designer que, por exemplo, trabalha com a casa Ermelinda Freitas ou com a Sogrape, responsável pela distribuição de vinhos como o Grão Vasco ou Sandeman.

Paal é direto a explicar o que considera um bom rótulo: «é o que consegue chamar a atenção do consumidor, ao ponto deste pegar na garrafa de vinho e levá-la para casa». O que, com as garrafeiras a transbordar, é uma tarefa cada vez mais complicada.

Fonte: Jornal i