Famílias geram quase dois terços do desperdício alimentar
- 19 agosto 2026, quarta-feira
- Consumo

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Margarida Caferra
Portugal desperdiçou mais de 1,8 milhões de toneladas de alimentos em 2024, sendo que cerca de 65 % do desperdício alimentar nacional tem origem no consumo doméstico. Planeamento das compras, conservação adequada e aproveitamento de sobras estão entre as práticas apontadas pela Smart Waste Portugal para reduzir perdas alimentares e aliviar o orçamento das famílias.
Portugal desperdiçou mais de 1,8 milhões de toneladas de alimentos em 2024, o equivalente a 161,2 kg por habitante, segundo dados provisórios citados pela Associação Smart Waste Portugal. Do total registado, cerca de 65 % teve origem no consumo doméstico. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, o restante desperdício distribuiu-se pelo comércio e distribuição, com 13 %, pela restauração, hotelaria e similares, com 11,3 %, pela produção primária, com 7 %, e pela indústria, com 3,6 %. A nível mundial, dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura relativos a 2022 indicam que cerca de 1,05 mil milhões de toneladas de alimentos foram desperdiçadas, sendo 60 % do desperdício registado em contexto doméstico, 28 % nos serviços de restauração e 12 % no retalho.
Além do impacte associado ao desperdício de recursos, os alimentos que não chegam a ser consumidos representam também uma perda económica. Uma estimativa divulgada pela Too Good To Go em 2024, baseada nos dados europeus então disponíveis, apontava para cerca de 350 euros por pessoa, por ano, gastos em alimentos posteriormente desperdiçados. Num agregado familiar de três pessoas, o montante pode aproximar-se dos 1000 euros anuais.
A Smart Waste Portugal considera que algumas práticas de economia circular podem contribuir para reduzir estas perdas. Planear as refeições, verificar os produtos existentes em casa antes de efetuar novas compras, conservar corretamente os alimentos e reaproveitar sobras estão entre as medidas identificadas. A associação destaca igualmente a importância de interpretar corretamente a informação presente nos rótulos, distinguindo a data-limite de consumo da indicação “consumir de preferência antes de”.
Economia circular começa antes do resíduo
A redução do desperdício alimentar insere-se num conceito mais abrangente de economia circular, que não se limita à reciclagem e começa antes da geração do próprio resíduo, através da redução de consumos desnecessários, reutilização, manutenção, reparação, partilha e recondicionamento.
Segundo a Smart Waste Portugal, esta lógica pode também ser aplicada a outras escolhas quotidianas, como reparar equipamentos em vez de os substituir, optar por produtos em segunda mão ou recondicionados e recorrer à partilha ou ao aluguer de bens utilizados ocasionalmente. De acordo com o Parlamento Europeu, os consumidores da União Europeia perdem, em conjunto, cerca de 12 mil milhões de euros por ano ao substituir bens em vez de os reparar.
A pressão exercida pelo consumo sobre os recursos naturais reforça, segundo a associação, a necessidade desta transição. Se toda a humanidade consumisse ao nível da população portuguesa, seriam necessários cerca de três planetas para responder à procura. Em 2026, o Dia da Sobrecarga da Terra de Portugal ocorreu a 7 de maio, de acordo com a Global Footprint Network.
Para a Smart Waste Portugal, aproximar a economia circular dos cidadãos implica tornar mais evidentes os seus benefícios no quotidiano. A associação salienta, contudo, que a mudança não depende exclusivamente dos consumidores, defendendo também a disponibilização de produtos mais duráveis e reparáveis e políticas públicas que facilitem a reutilização, a partilha e a aquisição de produtos em segunda mão.
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