Europa acelera produção industrial de novos ingredientes

Biorrefinaria SUSTAINEXT financiada pela CBE JU em Hervás, Espanha. FOTO / CBE JU
Margarida Caferra
Um conjunto de 47 projetos europeus está a desenvolver novos ingredientes para alimentação humana e animal, fontes alternativas de proteína e processos de produção de base biológica. Com 287,8 milhões de euros de financiamento europeu e um investimento total de 409,5 milhões, perto de 60 % dos projetos correspondem a ações de demonstração ou de implementação à escala industrial.
Os projetos apoiados pela Circular Bio-based Europe Joint Undertaking abrangem diferentes fases de desenvolvimento, desde a investigação e validação de processos até à produção-piloto, unidades de demonstração e primeiras instalações industriais.
No total, foram reportados 131 novos produtos com potencial de aplicação na alimentação humana e animal. Destes, 102 correspondem a ingredientes, 60 destinados à alimentação humana e 42 à alimentação animal, enquanto os restantes 29 são produtos químicos de base biológica com possíveis aplicações nestes mercados.
A demonstração em instalações-piloto permite avaliar o desempenho dos processos, os custos e a qualidade dos produtos antes de novos investimentos industriais.
“A Europa não tem falta de inovação promissora na alimentação humana e animal. O desafio é fazer com que uma maior parte dessa inovação avance para a demonstração e para uma produção industrial competitiva. A CBE JU ajuda as empresas a ultrapassar os riscos associados ao aumento de escala e a envolver parceiros de toda a cadeia de valor nesse processo”, afirma Nicoló Giacomuzzi-Moore, diretor executivo da CBE JU.
Subprodutos dão origem a novos ingredientes
Os projetos recorrem a recursos biológicos disponíveis na Europa, incluindo subprodutos das indústrias agrícola e alimentar, resíduos de culturas, erva e biomassa aquática.
O projeto UP4HEALTH recuperou ingredientes de valor acrescentado a partir de subprodutos do processamento agrícola. Entre os desenvolvimentos encontra-se um pó obtido a partir de polpa de azeitona, com fibra alimentar e polifenóis, testado em barras enriquecidas.
Em Espanha, o SUSTAINEXT está a adaptar uma unidade de produção existente para criar uma biorrefinaria multiproduto com capacidade para processar anualmente 20 000 toneladas de biomassa de origem local. Alecrim, camomila e lúcia-lima serão processados juntamente com subprodutos de azeitona, cardo e romã para produzir extratos vegetais e ingredientes funcionais destinados, entre outros mercados, à alimentação humana e animal.
O projeto pretende integrar 12 cadeias de valor e produzir 46 extratos e ingredientes. “Levar o SUSTAINEXT a uma escala superior significa transformar um conceito de biorrefinaria altamente inovador e dinâmico numa realidade industrial, permitindo à Natac produzir mais e de forma mais eficiente para mercados alimentares altamente competitivos”, refere José María Pinilla Rosas, responsável pela gestão de projetos da Natac.
Fermentação amplia fontes alternativas de proteína
A fermentação assume também um papel central nos projetos, através de processos com fungos e microrganismos, fermentação de gases e sistemas contínuos destinados a aumentar a escala de produção.
O ZEST está a desenvolver ingredientes proteicos de origem fúngica a partir de subprodutos agrícolas e da indústria alimentar, enquanto o MycoStruct utiliza fermentação líquida para produzir ingredientes estruturados de micélio destinados a alternativas a peças inteiras de carne. Este último pretende aumentar a produção para uma unidade de demonstração com capacidade de 5000 litros e uma produção prevista de 25 toneladas por ano.
Outras soluções exploram matérias-primas distintas. O SynoProtein utiliza gases biogénicos provenientes de resíduos de serração para cultivar microrganismos destinados à produção de alimento rico em proteína para peixes, enquanto o PROSCALE desenvolve fermentação contínua de subprodutos da indústria alimentar para produzir ingredientes para alimentação humana.
A produção industrial já é uma realidade noutros projetos. O PLENITUDE instalou em Sas van Gent, nos Países Baixos, uma unidade de produção de micoproteína que integra a fermentação aeróbia numa biorrefinaria convencional existente. A instalação está operacional e apresenta uma capacidade potencial de 10 000 toneladas por ano, tendo realizado o primeiro fornecimento comercial em 2025.
Apesar dos avanços na produção, a chegada destes ingredientes ao mercado continua dependente de fatores como os procedimentos regulamentares aplicáveis a novos alimentos e aditivos para alimentação animal, o acesso a investimento e infraestruturas industriais e a aceitação dos consumidores.
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