Como a diversificação de proteínas está a ganhar escala

FOTO LIKEMEAT/ SITE GFI EUROPE

João Guilherme Oliveira

O sistema alimentar europeu enfrenta uma década decisiva. Pressionada pelas alterações climáticas, tensões geopolíticas que ameaçam a segurança das importações e uma exigência acrescida dos consumidores por opções sustentáveis, a Europa procura caminhos para diversificar as suas fontes de proteína. Nesta transição está a EIT Food (Inovação Europeia em Tecnologia Alimentar), que trabalha para transformar ideias promissoras em mudança sistémica.

Segundo dados do Good Food Institute Europe, se a União Europeia assumir as proteínas alternativas como uma prioridade estratégica, o sector poderá injetar 111 mil milhões de euros anuais na economia europeia e criar cerca de 400 mil empregos até 2040.

Da fragmentação à escala industrial

Historicamente, a inovação alimentar tem avançado de forma isolada, através de pequenas startups ou projetos-piloto com impacto limitado. O grande desafio atual prende-se com a criação de pontes que unam toda a cadeia de valor: desde o agricultor que testa novas culturas, como as favas, até à indústria que necessita de infraestruturas à escala e aos reguladores em Bruxelas.

A viabilidade desta transição depende de um ecossistema integrado. Para que a diversificação de proteínas deixe de ser um nicho e faça parte do mercado global, a EIT Food tem impulsionado projetos de elevado impacto ambiental e comercial:

  • Gavan Technologies: Criadora da Fatrix, uma gordura de base vegetal que imita a textura da manteiga. Prevê que se alcance 8000 toneladas em vendas, evitando a emissão de quase 125 milhões de kg de CO2 equivalente até 2030.
  • MATR Foods: Focada na transmissão de subprodutos alimentares em alimentos ricos em proteína através da fermentação. O seu impacto carbónico é cerca de 95% inferior ao da carne de vaca tradicional.
  • Revo Foods: Desenvolveu o primeiro filete de salmão do mundo impresso em 3D a partir da microproteína (raiz de cogumelo), conseguindo já garantir espaço nas prateleiras dos principais supermercados europeus.

Alinhar políticas, produtores e consumidores

A inovação tecnológica, por si só, é insuficiente se o enquadramento regulatório e os hábitos de consumo não acompanharem o movimento. Entre 2020 e 2025, a Comissão Europeia alocou 469 milhões de euros à investigação de proteínas alternativas, sinalizando a importância estratégica do sector. Contudo, barreiras como a lentidão nos processos de aprovação regulatória e a falta de capacidade industrial continuam a ser desafios reais.

Par mitigar estes obstáculos, a EIT Food dedica-se a três pilares essenciais: Políticas Públicas, Agroindústria Resiliente e Insights do Consumidor.

O cenário ideal traçado pelos investigadores aponta para 2035 como o ano do “equilíbrio de escolhas”, onde os cidadãos europeus terão fácil acesso a uma gama variada e segura de proteínas sustentáveis, venham elas de plantas, fermentação ou agricultura celular. A soberania e a sustentabilidade alimentar da Europa dependem da capacidade de fazer avançar estes milhares de decisões em simultâneo.

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