Técnicas analíticas para controlo de qualidade de suplementos alimentares para o sono, gestão de stress e saúde mental

FOTO STEVEPB/ PIXABAY

O mercado de suplementos alimentares para o sono e bem-estar mental tem crescido de forma considerável, mas permanece vulnerável a variações de teor, falhas de padronização botânica e, em casos extremos, adulteração.

Este artigo apresenta metodologias cromatográficas implementáveis em rotina industrial para controlo de qualidade destes produtos, com foco em HPLC-DAD e HPLC-FLD como alternativas de elevada relação custo-benefício. O HPLC-DAD destaca-se para a confirmação da identidade/autenticidade de extratos vegetais (valeriana, passiflora, melissa), por meio de “impressões digitais” e da quantificação de marcadores fitoquímicos.

O HPLC-FLD é proposto para a avaliação de analitos em baixa dose, com ênfase na melatonina e nos aminoácidos/neurotransmissores ou seus precursores (L-triptofano, 5-HTP, GABA, L-teanina), possibilitando limites de quantificação na ordem de ng/mL após derivatização apropriada. São discutidos parâmetros críticos (conformidade quantitativa, autenticidade, impurezas/adulterantes, estabilidade) e práticas de validação (linearidade, LOD/LOQ, precisão, recuperação e robustez) adequadas a laboratórios de empresas. Conclui-se que uma estratégia baseada em HPLC-DAD/FLD permite a confirmação da composição do suplemento nestes compostos e a definição informada do prazo de validade, reforçando a proteção do consumidor e a credibilidade do setor.

INTRODUÇÃO

O consumo de suplementos alimentares destinados à melhoria do sono, à gestão do stress e ao bem-estar mental tem vindo a aumentar de forma muito significativa. Estes produtos combinam frequentemente melatonina; aminoácidos e/ou neurotransmissores ou seus precursores (por exemplo, L-triptofano, 5-hidroxitriptofano (5-HTP), ácido gama-aminobutírico (GABA), L-teanina); minerais, como magnésio; e extratos vegetais com alegadas propriedades calmantes (valeriana, passiflora, camomila, melissa, lavanda, entre outros). Embora sejam regulados como alimentos, o posicionamento comercial aproxima-os de produtos com alegação terapêutica: “dormir melhor”, “reduzir a ansiedade”, “promover o relaxamento”.

Esta proximidade com o universo farmacêutico cria expectativas elevadas de consistência e eficácia. O consumidor assume que a dose declarada é real, que o produto é estável até ao fim do prazo de validade e que não contém ingredientes não declarados. No entanto, ao contrário dos medicamentos, os suplementos alimentares não são sistematicamente sujeitos ao mesmo nível de controlo analítico nas fases de desenvolvimento e de libertação de lote. Isto abre espaço para problemas bem conhecidos: discrepância entre o rótulo e o conteúdo, sobredosagem intencional de certos ingredientes “estrela” (como a melatonina) e variações significativas entre lotes.

Neste contexto, o controlo de qualidade baseado em métodos analíticos robustos deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser uma condição mínima para proteger o consumidor e a reputação do fabricante. Importa, contudo, que esses métodos sejam tecnicamente sólidos e economicamente viáveis para uma empresa agroalimentar. A cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) acoplada à deteção por matriz de díodos (DAD) e fluorescência (FLD) cumpre estes requisitos: são técnicas robustas, disponíveis em muitos laboratórios de controlo de qualidade alimentar, e oferecem seletividade e sensibilidade suficientes para a maioria dos analitos relevantes nos suplementos para “sono/ saúde mental”.

Neste artigo, descrevem-se abordagens HPLC-DAD e HPLC-FLD aplicáveis à rotina industrial, com foco em: (i) verificação da identidade e do teor dos ingredientes ativos, (ii) monitorização da estabilidade e (iii) deteção preliminar de adulterações. (...)

Em co-autoria Clara Grosso, Cristina Delerue-Matos, Manuela Correia
REQUIMTE/LAQV, Instituto Superior de Engenharia do Porto,
Instituto Politécnico do Porto
Joana Amaral, Centro de Investigação de Montanha (CIMO)
Instituto Politécnico de Bragança 

Artigo publicado na íntegra na TecnoAlimentar nº 45, outubro/ dezembro 2025

Cristina Soares

Investigadora no LAQV/REQUIMTE e no ISEP

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