Alimentar Portugal defende agroalimentar como prioridade

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Margarida Caferra
A iniciativa Alimentar Portugal defende o reconhecimento da agricultura e da alimentação como domínio estratégico da política nacional de ciência, tecnologia e inovação. A proposta recomenda financiamento plurianual, maior articulação entre instituições científicas e empresas e investimento em infraestruturas tecnológicas que permitam transformar o conhecimento científico em soluções aplicadas à produção agrícola e à indústria alimentar.
O documento Alimentar Portugal – Ciência e Inovação para a Segurança, Soberania e Competitividade Nacional, já submetido à Agência para a Investigação e Inovação (AI²), reúne contributos de instituições científicas, empresas e associações dos setores agroalimentar e agroflorestal, no âmbito do processo de definição de prioridades nacionais de investigação e inovação promovido pela AI².
A proposta resulta da agregação de nove contributos apresentados na sessão dedicada à agricultura, agroalimentar e bioeconomia do encontro Ciência e Inovação 2026 e das conclusões da consulta Alimentar Portugal, realizada a 18 de setembro, na Universidade de Évora, que reuniu cerca de 200 participantes, entre investigadores, docentes, estudantes e representantes do setor primário, da indústria, de associações de produtores e da administração pública.
O documento sustenta a necessidade de uma estratégia que abranja toda a cadeia alimentar, desde a produção agrícola até à transformação, distribuição e consumo, com o objetivo de aumentar a capacidade produtiva nacional, reduzir dependências externas e melhorar a competitividade das empresas.
Segundo os dados apresentados no documento, referentes a 2024, a fileira agroalimentar portuguesa registou um volume de negócios de 34 946 milhões de euros e um valor acrescentado bruto de 7919 milhões de euros, envolvendo mais de 124 mil empresas e 327 mil trabalhadores. A indústria alimentar e das bebidas registou, por sua vez, um volume de negócios de 24 550 milhões de euros, um valor acrescentado bruto de 4751 milhões de euros e empregava 116 483 trabalhadores (INE, 2024).
Apesar do peso económico do setor, o documento assinala que Portugal mantém um défice estrutural da balança comercial agroalimentar superior a cinco mil milhões de euros, apontando a investigação, a inovação e a tecnologia como instrumentos para aumentar a capacidade nacional de produção e transformação.
Biotecnologia e digitalização entre as prioridades
Entre as áreas identificadas estão a biotecnologia, a inteligência artificial, a digitalização e a bioeconomia, com aplicações na produção alimentar, na utilização eficiente dos recursos e no desenvolvimento de novos produtos.
A proposta destaca a fermentação de precisão, a produção de biomassa microbiana, a utilização de microalgas e o cultivo de células animais como abordagens com potencial para o desenvolvimento de proteínas alternativas e ingredientes funcionais. A valorização de subprodutos agrícolas e agroalimentares é igualmente apontada como uma oportunidade para criar novas cadeias de valor.
Na segurança alimentar, o documento defende o desenvolvimento de sistemas digitais de vigilância, monitorização e previsão de riscos emergentes, bem como ferramentas de otimização das cadeias de abastecimento. A utilização de inteligência artificial poderá apoiar a identificação antecipada de riscos e a gestão da qualidade dos alimentos.
A estratégia contempla ainda a investigação em embalagem e conservação, a adaptação dos sistemas produtivos às alterações climáticas e a gestão mais eficiente da água e de outros recursos naturais.
Da investigação à aplicação industrial
Um dos principais problemas identificados é a dificuldade em transformar resultados da investigação científica em tecnologias, processos e produtos com aplicação industrial. O documento aponta limitações na transferência de conhecimento, na disponibilidade de infraestruturas piloto, na validação pré-industrial e na passagem das soluções para a escala industrial.
Para responder a estas dificuldades, a iniciativa propõe o desenvolvimento de infraestruturas partilhadas de experimentação e demonstração, incluindo unidades piloto, biorreatores e instalações destinadas ao desenvolvimento, ensaio e validação de tecnologias antes da sua aplicação à escala industrial.
Entre as medidas defendidas estão também mecanismos de cofinanciamento entre instituições científicas e empresas, apoio à transferência de tecnologia e instrumentos para facilitar a entrada no mercado de novos produtos e processos.
Para concretizar esta estratégia, o documento recomenda financiamento plurianual dedicado, mecanismos de coordenação entre ministérios e apoio às infraestruturas científicas e tecnológicas.
A proposta prevê ainda que os resultados sejam avaliados não apenas pela produção científica, mas também pelo investimento privado mobilizado, pelas tecnologias adotadas pelas empresas, pelos novos produtos colocados no mercado e pelo contributo para a redução das dependências externas.
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