Robotização e criatividade

Por Manuel Rui F. Azevedo Alves, Diretor da Revista TecnoAlimentar e Professor Coordenador, Grupo de Engenharia Alimentar, Instituto Politécnico de Viana do Castelo

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A Robotização e a Inteligência Artificial são duas realidades que vão marcar o século XXI.

A primeira – a robotização – já cá está há muito tempo, mas nem sempre nos apercebemos porque, devido à ficção científica, nos habituamos a pensar em robôs como coisas parecidas com homens e mulheres. Mas quem visite fábricas com frequência vai-se apercebendo que as zonas de fabrico vão deixando de ter funcionários para ter um ou dois inspectores, e que os armazéns têm empilhadoras que se deslocam sozinhas, ordeiramente, por estradas marcadas no chão, transportando materiais entre prateleiras e camiões.

A segunda – a inteligência artificial – vai crescendo a uma velocidade assustadora, graças ao trabalho de pessoas muito inteligentes, e seguramente muita dessa inteligência humana vai gradualmente ser absorvida pelos robôs, que serão cada vez mais capazes e autónomos.

É claro que há quem pense que os robôs vão ocupar o lugar das pessoas, e que daí vai resultar um enorme desemprego. E até certo ponto não deixa de ser verdade: cada vez será menos importante o trabalho indiferenciado executado por pessoas sem estudos. Essas estão condenadas a desaparecer do mercado de trabalho e a ser substituídas por outras com conhecimentos técnicos cada vez mais evoluídos.

Os robôs vão aumentar a produtividade, tornando as empresas mais competitivas. Erros, incumprimentos e acidentes terão tendência a ser cada vez menores com a robotização crescente, e as empresas serão mais organizadas e limpas, o que para a indústria alimentar trará enormes vantagens. Já para não falar nas múltiplas tarefas que serão feitas por robôs simplesmente porque ninguém as quer fazer.

Neste contexto, as pessoas com estudos superiores e tecnicamente mais habilitadas serão cada vez mais necessárias para fazer trabalhos diferentes: programar e adaptar os robôs às tarefas que têm de desempenhar; desenvolver novos produtos ocupará um lugar de destaque, sendo necessário estudar os consumidores em permanência e desenvolver produtos que vão de encontro às novas tendências; novos problemas microbiológicos vão surgir como consequência da adaptação dos microrganismos às novas máquinas e métodos; e vai ser necessário ajustar o desenvolvimento e a produção alimentares a matérias-primas cada vez mais escassas, reduzindo desperdícios e ao mesmo tempo favorecendo a existência de produtos nutricionalmente equilibrados.

Cabe agora questionarmo-nos se, no nosso país, estamos a acompanhar este "progresso" civilizacional. Será que estamos a educar as novas gerações para que disponham de conhecimentos de base sólidos e capacidades técnicas que lhes garantam um lugar no mercado de trabalho? Creio que não. Vive-se muito a política e os governos sucumbem aos lobbies instalados. Pior: muitos desses lobbies representam a tal componente da população impreparada, onde infelizmente têm de incluir-se muitos dos nossos políticos actuais. Discute-se o acessório, sem gestão nem estratégia.

E as nossas empresas estão vivas e inovadoras, impondo-se nos mercados internacionais? Seguramente que a maioria das empresas alimentares não está nesse patamar. As empresas têm de aproveitar a robotização e os consequentes ganhos de produtividade para investirem no seu desenvolvimento através do conhecimento dos seus colaboradores, casando a automatização com a criatividade e exigindo ao Estado que seja eficiente na formação de base dos seus quadros.

O futuro pertencerá aos robôs e às pessoas. Felizmente! Mas apenas aos robôs cada vez mais inteligentes e às pessoas cada vez mais educadas, que trabalharão lado-a-lado em empresas inovadoras e sustentáveis.

Nota: Editorial da edição impressa da TecnoAlimentar 14.

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