Setor hortofrutícola cresce, mas ainda enfrenta desafios

D.R.
O Encontro Hortofrutícola reuniu, a 30 de abril, vários intervenientes da cadeia de valor hortofrutícola, incluindo produtores, retalhistas, associações setoriais e autoridades fiscalizadoras, para debater os principais desafios do setor e identificar soluções para uma cadeia mais eficiente e colaborativa
Na abertura, Paulo Gomes, Diretor-Geral da GS1 Portugal, organizadora do evento, defendeu uma cadeia assente na partilha de dados fiáveis, interoperáveis e verificáveis, acessíveis a todos os operadores, sublinhando o papel da GS1 Portugal como ponto de encontro e apoio à transição digital da cadeia de valor.
Também João Dias, do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral, o Ministério da Agricultura e Mar destacou o crescimento consistente do setor hortofrutícola em Portugal, com um aumento expressivo da área de produção e um recorde nas exportações em 2024, num contexto em que a União Europeia representa 80 % das vendas externas. Ainda assim, alertou para desafios como a revisão da PAC, as alterações climáticas, a gestão do regadio, a fitossanidade, a escassez de mão de obra e o aumento dos custos de produção.
Neste cenário, Sílvia Mendonça, Brand & Customer Development Director da Vitacress, destacou as principais forças que estão a transformar o setor, desde o crescimento do mercado e a procura por soluções mais saudáveis e práticas até aos desafios da rentabilidade, da qualidade e segurança alimentar, da sustentabilidade e do impacto da tecnologia e da inteligência artificial.
Em comunicado, a GS1 dá também conta do debate sobre a estratégia setorial e a competitividade do setor hortofrutícola, onde se discutiram os pontos fortes como a qualidade da produção, a inovação e o crescimento das exportações, e, por outro lado, a persistência de fragilidades estruturais que travam o seu desenvolvimento. Augusto Ferreira, da Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal, destacou o investimento como prioridade crítica e defendeu cooperativas mais fortes, com maior escala e capacidade financeira. Rodrigo Vinagre, Presidente do Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional, alertou para a necessidade de condições que permitam uma maior organização dos produtores e sublinhou como prioridade crítica a divisão mais equitativa do preço final ao longo de toda a cadeia. Já Domingos Joaquim Filipe dos Santos, da Associação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas, reforçou a importância da organização dos agricultores para o setor e frisou o papel decisivo do regadio: “Não falta água, há é pouco armazenamento e pouca distribuição”, explica.
Raquel Abrantes, Diretora de Qualidade e Standards da GS1 Portugal, esclareceu que a nova geração de códigos bidimensionais representa uma evolução importante para o setor, ao permitir maior capacidade de armazenamento de informação e uma impressão mais reduzida, num contexto de transição global que acompanha a ambição 2027 no retalho, segundo a qual todos os sistemas do ponto de venda deverão ser capazes de ler este tipo de códigos. Neste contexto, Pedro Manuel, founder e CEO da Bitcliq Technologies, apresentou o caso ‘O Génio da Embalagem no Morango 4.0’ como exemplo prático da aplicação da codificação 2D, mostrando como um único código pode responder às necessidades do ponto de venda e, ao mesmo tempo, servir de ferramenta de comunicação direta entre produtor e consumidor, com acesso a informação nutricional, rastreabilidade, reciclagem e outras funcionalidades digitais.
Num setor ainda marcado por decisões baseadas em informação incompleta, falta de visibilidade entre parceiros, excesso ou ruturas de stock e desperdício alimentar, Bárbara Fraga, Executive Director of Supply Chain and Logistics Consulting da Logistema, apresentou a Flowpack como uma plataforma colaborativa para a cadeia de abastecimento hortofrutícola. A responsável apontou a digitalização, a integração da informação e o planeamento colaborativo como fatores essenciais para melhorar a eficiência logística, reduzir custos e aumentar a capacidade de resposta da cadeia a disrupções, sublinhando ainda o impacto económico, ambiental e social destas soluções.
No plano internacional, Giacomo Celi, da GS1 Global Office, destacou a dimensão e a relevância do setor hortofrutícola, defendendo uma linguagem comum de dados que ajude a responder às exigências da segurança alimentar, da sustentabilidade e da informação para o consumidor. Já Tom Quets, consultor da GS1 in Europe, sublinhou o papel da digitalização na transição para sistemas alimentares mais sustentáveis e saudáveis, enquanto Rhodah Mwose, da GS1 Kenya, chamou a atenção para as dificuldades dos pequenos produtores no acesso ao mercado e para a importância da formação e da organização da cadeia para reduzir perdas e melhorar a comercialização.
Neste seguimento, a GS1 Portugal apresentou as conclusões da 2.ª edição do estudo Tracking Hortofrutícolas. Os resultados de 2025, baseados na participação de 19 fornecedores e seis retalhistas, apontam para uma relação comercial sólida, mas revelam margem para reforçar a agilidade, a partilha de informação e a colaboração ao longo da cadeia, num contexto de maior exigência operacional, digitalização e foco na sustentabilidade.
Entre os principais aspetos identificados, o estudo mostra que a frescura e o estado dos produtos no momento da entrega continuam a ser a principal prioridade do retalho, apesar dos bons níveis de desempenho registados em áreas como o controlo de temperatura e a rastreabilidade. Do lado dos retalhistas, persiste a necessidade de melhorar a comunicação de ocorrências, a gestão de picos de procura e a abertura à inovação e ao planeamento conjunto.
Vitor Aparicio González, Supply Chain Project Manager da AECOC/GS1 Spain, apresentou a visão espanhola do estudo Tracking Frescos, Frutas e Legumes. Criado para medir o nível de serviço e a eficiência logística e comercial da cadeia, este estudo, como destacou, surgiu com o objetivo de apoiar uma melhor resposta aos consumidores. Como evidenciou aquele responsável, num contexto de maior pressão sobre o stock, de volatilidade económica e geopolítica e de impactos já visíveis das alterações climáticas, a colaboração entre fornecedores e retalhistas é cada vez mais importante.
João Mónica, Key Account Manager da GS1 Portugal, realizou a entrega dos prémios, distinguindo a Planície Verde com o primeiro lugar do lado dos fornecedores e a MC Sonae do lado do retalho.
No debate sobre os desafios da cadeia de abastecimento das frutas e legumes, focou-se a importância de uma maior partilha de informação, de melhor planeamento e de uma colaboração mais estreita entre produtores, retalhistas e operadores logísticos. Luís Correia, CEO da Planície Verde, destacou a necessidade de tirar partido do estudo para identificar oportunidades de melhoria, reforçar a comunicação atempada e reduzir o desperdício alimentar. Já Manuel Reis, CEO da Campotec, sublinhou a utilidade de uma avaliação alargada entre empresas para identificar áreas de melhoria e reforçar a qualidade do produto. Por fim, Octávio Alvarez, Diretor de Distribuição e Logística do El Corte Inglés, chamou a atenção para as exigências crescentes do consumidor, a importância da frescura e da qualidade e o papel decisivo dos operadores logísticos na eficiência da cadeia.
No encerramento do 3.º Encontro Hortofrutícolas, Artur Andrade, Diretor de Community Engagement da GS1 Portugal, sublinhou o compromisso da organização em continuar a aproximar-se do setor, procurando constituir uma comunidade que localmente analise as tendências com maior impacto, as necessidades e oportunidades, promovendo soluções baseadas em standards, colaboração e inovação.
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