Consumo de pescado selvagem e de aquacultura: riscos e benefícios

FOTO PRINCE CHARLES MALAQUE/ UNSPLASH

Nas escolhas alimentares de bens perecíveis, como é o caso do pescado, é frequente os consumidores basearem as suas decisões na avaliação de riscos e benefícios associados à compra. Neste contexto, o pescado é geralmente percecionado como uma categoria alimentar saudável e beneficia de uma imagem globalmente positiva.

De facto, o consumo de peixe está associado a diversos benefícios para a saúde humana e é amplamente reconhecido como um alimento de elevada qualidade nutricional. Destaca-se, em particular, pelo seu alto teor de ácidos gordos polinsaturados, mais especificamente ácidos gordos essenciais ómega-3, nomeadamente ácido eicosapentaenóico (EPA) e ácido docosahexaenóico (DHA), que desempenham um papel fundamental na saúde cardiovascular, tais como a diminuição da coagulação sanguínea, sendo por isso considerados protetores de doença cardiovascular e possuem um efeito anti-inflamatório. As proteínas do peixe são de alto valor biológico e constituem uma importante fonte de aminoácidos essenciais, como a lisina. É também rico em micronutrientes essenciais, como as vitaminas A, D e B12, e fornece uma quantidade considerável de minerais, como potássio, fósforo e iodo, respetivamente importantes para a manutenção do equilíbrio hidroeletrolítico, contração muscular, funcionamento das membranas celulares, estrutura dos ácidos nucleicos, metabolismo energético e ósseo, e para o correto funcionamento da tiroide. Estes aspetos reforçam a sua integração em padrões alimentares saudáveis, como a dieta mediterrânica.

Segundo a Pirâmide da Dieta Mediterrânica, o pescado encontra-se no patamar dos alimentos que devem ser consumidos semanalmente, sugerindo o consumo de 2 ou mais porções de peixe/pescado por semana. Já na Roda dos Alimentos, o pescado integra o grupo das “Carnes, Pescado e Ovos”, recomendando-se a ingestão de 1,5 a 4,5 porções diárias de alimentos deste grupo, em que uma porção corresponde a 25 g de carnes ou pescado cozinhados ou a 30 g de carnes ou pescado crus.

Mundialmente, esta imagem positiva do pescado tem levado ao aumento da procura, conduzindo à expansão global das frotas de pesca, que, aliada a uma maior eficiência na captura, contribui para a intensificação da sobrepesca e para o risco de esgotamento de alguns stocks naturais. De acordo com os relatórios da FAO, a fração dos stocks marinhos explorados em níveis biologicamente sustentáveis diminuiu para 62,3 %, em 2021, menos 2,3 pontos percentuais do que em 2019.

Porém, o pescado também é percecionado como uma fonte potencial de exposição humana a contaminantes químicos. De facto, os ecossistemas aquáticos podem acumular diversas substâncias poluentes provenientes de atividades industriais, agrícolas e urbanas. Entre os contaminantes mais frequentemente associados ao consumo de pescado, particularmente no caso dos peixes gordos, destacam-se os metais pesados, como o mercúrio, o cádmio e o chumbo, bem como os poluentes orgânicos persistentes, como as dioxinas e os policlorobifenilos (PCB). A exposição crónica a determinados contaminantes pode estar associada a efeitos adversos na saúde humana, nomeadamente a nível neurológico, imunológico e endócrino, sendo particularmente relevante para grupos vulneráveis, como grávidas, crianças e indivíduos com elevado consumo de peixe. Consequentemente, a perceção do risco associado à presença de contaminantes pode influenciar as escolhas alimentares dos consumidores, gerando dúvidas quanto à quantidade e ao tipo de peixe que devem integrar uma alimentação equilibrada.

Em resposta à evolução destas dinâmicas, o pescado produzido por meio de sistemas de aquacultura tem-se afirmado como uma alternativa relevante. De acordo com os dados da FAO, a aquacultura mundial continua a ser o setor de produção animal para alimentação que mais cresce, tendo passado de menos de um milhão de toneladas anuais no início da década de 1950 para 94,4 milhões de toneladas, em 2022. Nesse ano, a aquacultura representou cerca de 57 % do pescado destinado ao consumo humano a nível global. Além disso, o pescado produzido em aquacultura permite maior controlo da qualidade do produto, possibilitando à indústria oferecer diferentes padrões de qualidade (por exemplo, no teor de lípidos e perfil de ácidos gordos), ajustados às diversas preferências dos mercados globais.  (...)

Leia o artigo completo na TecnoAlimentar nº 46, janeiro/ março de 2026 
Ana Pinto de Moura

Autora da coluna "Consumo"

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