Abate de bovinos cresce mais de 20% ajudado pela crise no leite

O abate de bovinos nos Açores está em grande crescimento este ano, tendo-se registado no primeiro semestre de 2016 um aumento de 23%, ou seja, de mais 1500 toneladas de carne produzida, por comparação com os primeiros seis meses de 2015.

E se é verdade que a produção específica de carne também está a aumentar, uma boa parte deste grande aumento deve-se à crise no leite e ao abate antecipado de vacas a que muitos produtores estão a recorrer para reduzirem o seu efetivo e, consequentemente, a sua produção e os seus custos, ficando apenas com as vacas de maior rendimento na exploração e enviando para abate, seis meses a um ano antes do tempo certo, vacas que em tempos normais seriam de produção mas que, com a crise atual, têm de ser abatidas para reduzir custos.

Aliás, a redução de produção na ilha de São Miguel já vai em cerca de 3500 toneladas de leite a menos entregue nas fábricas entre janeiro e julho deste ano, por comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo os mais recentes dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA).

Este é o resultado de uma grande instabilidade no mercado do leite que se seguiu ao fim das quotas leiteiras em abril do ano passado, um fator que se veio juntar ao embargo russo e às mudanças de hábitos dos consumidores, hoje ‘bombardeados’ com informações sobre a intolerância à lactose quando há 30 anos atrás falar de leite era falar de um benefício para saúde, sem contraindicações.

Uma instabilidade que levou a descidas no preço do leite pago ao produtor na ilha de São Miguel, nos últimos dois anos, de mais de 10 cêntimos por litro, num ciclo negativo que se iniciou no final de 2014 e ainda não se inverteu.

E como as vacas não têm uma ‘torneira’ que se abre e fecha conforme se quer mais ou menos leite, os produtores têm sido obrigados a reagir, ou por via do abate antecipado de animais, ou por via da mudança na sua alimentação, para conseguirem baixar a produção, introduzindo complementos de ração na alimentação das vacas de gama inferior, fazendo com isso também baixar um pouco a produção e, sobretudo, poupando nos custos.

O presidente da Associação Agrícola de São Miguel, Jorge Rita, lembrou a aplicação de limites de produção de leite em São Miguel pela Bel e pela Insulac, as duas indústrias que impuseram limites aos seus produtores, sob pena de pagarem o leite a mais com penalizações. Por isso, lamentou, «isso fez com que muitos produtores, para além de alterarem os seus maneios, também tivessem de abater um maior número de vacas, num efeito imposto por algumas indústrias de laticínios».

Uma vaca leiteira pode produzir em boas condições até aos cinco, seis anos de idade, havendo vacas geneticamente muito apuradas que podem permanecer a produzir até quase aos 10 anos, mas o normal é não passarem dos seis anos, antes de serem abatidas para venda da sua carne. Mas nesta fase e sobretudo para as vacas que não têm um nível de produção muito elevado, essa fasquia dos seis anos antes do abate baixou, pela necessidade de reduzir a produção e ter um número ajustado de vacas nas explorações.

Até agora, esse aumento de vacas para abate tem encontrado mercado, embora e também por via do aumento da carne produzida, o seu preço tenha baixado.

Jorge Rita afirma, contudo, esperar que o ciclo negativo de abaixamentos sucessivos no preço do leite pago ao produtor se inverta nos próximos tempos, «porque os mercados têm vindo a melhorar».

Por isso, conclui, os produtores têm neste momento uma expectativa “legítima” de aumentos do preço do leite brevemente.

Fonte: Açoriano Oriental