Entrevista a Ana Paula Bico

Entrevista conduzida por Carla Santos Silva e Cátia Vilaça
Fotos Christina Genet
Ana Paula Bico, Diretora de Serviços de Nutrição e Alimentação da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, expõe os riscos a que os consumidores de suplementos alimentares se sujeitam com a desinformação propalada através das redes sociais, para além de esclarecer as competências da DGAV na monitorização deste tipo de substâncias.
Referiu numa entrevista que os consumidores têm hoje muita informação ao seu dispor, mas estão também muito suscetíveis a “modas” propaladas nas redes sociais. Em que é que se consubstanciam estas “modas” e quais os maiores riscos que advêm desta desinformação?
As redes sociais estão cheias de referências a modas do natural, do saudável, do vegetal, do sustentável, do elixir da juventude, que estão altamente difundidas e abrangem os alimentos e, como tal, também os suplementos alimentares. O setor dos suplementos alimentares tem de cumprir toda a legislação de segurança dos alimentos aplicável. No que diz respeito às regras da informação ao consumidor, vulgarmente chamada de rotulagem, são de tal modo detalhadas que permitem ao consumidor fazer escolhas conscientes e em função das suas necessidades. Contudo, para além da informação veiculada com o produto, há hoje em dia todo um universo de informação e desinformação difundida nas redes sociais que pode não ser a mais correta para o consumidor. No caso do consumo de suplementos alimentares, de acordo com a sua definição, que visam complementar ou suplementar uma dieta equilibrada e variada, a ausência de orientação profissional pode levar ao consumo excessivo de certos nutrientes ou substâncias, que podem ter interações, por exemplo, com medicamentos com risco de efeitos adversos.
A exposição à desinformação acontece num contexto em que os consumidores têm à sua disposição rotulagem detalhada. Que papel autoridades como a DGAV, eventualmente em parceria com outras, podem ter na promoção da literacia do consumidor?
Muitas vezes a perceção do consumidor é distorcida, pois associa um suplemento alimentar a substâncias naturais e a algo mais saudável. Importa esclarecer que um suplemento alimentar, na forma de comprimido, cápsula ou ampola, nada ou pouco tem de natural. Este é um mito que tem de ser abolido e a perceção do consumidor tem de ser corrigida. A DGAV, bem como outras entidades, participam e ajudam na divulgação da informação, alertando o consumidor sobre como ler (descodificar) a informação constante da rotulagem. A DGAV, para além das respostas aos operadores e de toda a informação que tem disponível no portal, responde muitas vezes diretamente aos consumidores. Também a produção de campanhas e pequenos vídeos oficiais explicando partes da rotulagem podem ser úteis para aumentar a literacia alimentar.
Qual é o panorama atual do mercado de suplementos alimentares em Portugal (crescimento, tipos de suplementos mais populares)?
De acordo com os nossos registos, o número de notificações de suplementos alimentares tem aumentado gradualmente, atingindo os 9500 produtos em 2024, mas estamos conscientes de que nem todos os produtos notificados se destinam ao mercado português. Cerca de 50 % das notificações de 2024 foram de operadores de outros Estados-Membros da UE onde a notificação tem custos mais elevados. Também o setor dos suplementos alimentares é sujeito a fatores de sazonalidade, mas de um modo geral temos ciclicamente produtos destinados a emagrecimento, potenciadores sexuais, principalmente para homens, e produtos de recuperação e bem-estar para facilitar treino e recuperação. No Outono - Inverno temos sempre produtos associados ao reforço da imunidade. (...)
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