Casca de cebola dá origem a bioplásticos mais resistentes e sustentáveis

FOTO MONICAZANONSP/ PIXABAY

Além de ser um resíduo agroalimentar abundante, a casca de cebola pode desempenhar um papel relevante na transição para embalagens mais sustentáveis. Uma investigação da Universidade de Aveiro (UA) veio demonstrar que é possível integrar diretamente casca de cebola moída em bioplásticos, obtendo materiais com melhor desempenho funcional e menor impacte ambiental, sem necessidade de processos complexos de extração ou purificação

A investigação do CICECO - Instituto de Materiais de Aveiro, uma das unidades de investigação da UA, baseia-se na incorporação de casca de cebola moída em matrizes à base de amido recuperado de resíduos industriais, nomeadamente das lamas derivadas do processamento de batata. Esta abordagem permitiu desenvolver bioplásticos com propriedades mecânicas melhoradas, maior resistência à água, barreira a gases e atividade antioxidante, requisitos fundamentais para aplicações no setor das embalagens funcionais.

Para além do desempenho técnico, o conceito destaca-se por alinhar dois princípios centrais da economia circular: a valorização integral de resíduos e a substituição de matérias-primas fósseis ou alimentares por subprodutos não comestíveis. Desta forma, contribui simultaneamente para a redução do impacte ambiental e para a diminuição da pressão sobre recursos primários.

O trabalho foi desenvolvido pelos investigadores Mariana Vallejo, Beatriz Esteves, Pedro Carvalho, Manuel Coimbra, Martinho Oliveira, Paula Ferreira e Idalina Gonçalves. Para além do CICECO, o trabalho contou com a colaboração do Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV) da Rede de Química e Tecnologia (REQUIMTE) e desenvolveu-se no Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica, no Departamento de Química, e na Escola Superior Aveiro-Norte.

Em comunicado, a Universidade de Aveiro ressalva que não existem dados estatísticos públicos e sistemáticos sobre a quantidade de cascas de cebola encaminhadas anualmente para aterro em Portugal, mas enquadra a questão com recurso aos números globais: os investigadores apontam que a produção mundial de cebola ultrapassa os 98 milhões de toneladas por ano, estimando-se que cerca de 5 % correspondam a cascas, o que representa aproximadamente 550 mil toneladas de resíduos anuais a nível global.

Atendendo à relevância das indústrias agroalimentar e do processamento de hortícolas em Portugal, os investigadores consideram plausível que vários milhares de toneladas de casca de cebola sejam gerados anualmente a nível nacional, sobretudo por indústrias de descasque, transformação e produção de refeições prontas. Este estudo demonstra que esse resíduo, em vez de representar um custo ambiental e económico, pode tornar-se uma matéria-prima funcional de elevado valor acrescentado.

A tecnologia já está, inclusivamente, protegida por patente, o que evidencia o seu potencial de transferência para a indústria. A patente descreve a produção de termoplásticos ativos e biodegradáveis a partir de amido não purificado recuperado de resíduos industriais e de casca de cebola, utilizando tecnologias de processamento convencionais, como extrusão ou moldação por compressão.

Os materiais desenvolvidos apresentam estabilidade térmica, atividade antioxidante e propriedades de barreira ajustáveis, podendo ser aplicados não só em embalagens ativas na conservação de alimentos ou de outros produtos, mas também em dispositivos médicos. Estas características, sublinham os investigadores, reforçam a maturidade tecnológica da solução e a sua viabilidade à escala industrial.

Consultar o estudo AQUI.

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