Autenticação botânica de plantas medicinais e suplementos alimentares por métodos de biologia molecular: aplicações e desafios

FOTO CONGERDESIGN/ PIXABAY

A utilização de plantas medicinais possui uma longa tradição em múltiplas culturas e nos sistemas de saúde, principalmente naqueles que integram práticas ancestrais. Nos últimos anos, o mercado de produtos à base de plantas tem vindo a registar um crescimento significativo. No entanto, face ao aumento da procura destes produtos, vários estudos têm levantado preocupações quanto à sua origem botânica.

As adulterações, sejam intencionais ou acidentais, constituem um risco para a qualidade dos produtos e a segurança dos consumidores. Desta forma, a verificação da autenticidade botânica das matérias-primas é essencial para assegurar a qualidade, eficácia e segurança dos produtos à base de plantas, tais como os suplementos alimentares que incluem plantas medicinais como ingredientes. Contudo, a identificação da origem botânica continua a representar um desafio significativo para diferentes sectores, tais como farmacêutico, suplementos alimentares e cosmético.

As incertezas quanto à espécie botânica decorrem de uma série de fatores que incluem a ausência de boas práticas de cultivo e colheita, a recolha silvestre por trabalhadores não especializados, as possíveis falhas nas cadeias de abastecimento e/ou processos industriais (que podem conduzir a trocas, misturas ou adulterações das matérias-primas) e insuficiências nos sistemas de controlo de qualidade. 

Entre os problemas mais comuns, destaca- se a substituição acidental por plantas morfologicamente semelhantes e a adulteração intencional por espécies mais acessíveis e economicamente vantajosas.

Em ambos os casos, a composição fitoquímica é alterada, podendo não se obter a atividade terapêutica pretendida e até mesmo comprometer a saúde do consumidor. A adulteração da origem botânica torna-se particularmente difícil de detetar quando os produtos passam por um processamento intensivo que altera ou elimina as suas características originais. As limitações associadas aos métodos tradicionais de identificação botânica baseados em características morfológicas, tais como análises macro e microscópicas, tornam-se evidentes em produtos processados, tais como extratos, pós, cápsulas ou comprimidos. Nestes casos, os traços distintivos das plantas frequentemente desaparecem ou são significativamente alterados.

Adicionalmente, a elevada semelhança morfológica entre espécies do mesmo género ou de géneros taxonomicamente complexos torna a identificação visual ainda mais desafiante. Do mesmo modo, as análises fitoquímicas, embora úteis, nem sempre são suficientemente específicas, já que os mesmos compostos podem estar presentes em diferentes espécies vegetais, nem sempre existindo compostos específicos que funcionem como marcadores de espécie.

Diante destas limitações, é cada vez mais patente a necessidade de recorrer a métodos de autenticação mais robustos capazes de responder aos desafios impostos pelas atuais formas de processamento. Neste contexto, as técnicas de biologia molecular baseadas na análise do DNA oferecem soluções eficazes para a identificação de espécies vegetais, mesmo em matrizes complexas ou degradadas.

As técnicas de biologia molecular têm vindo a transformar de forma significativa os métodos de autenticação botânica, sobretudo em contextos onde as abordagens convencionais, baseadas em caraterísticas morfológicas ou na composição química, se revelam insuficientes. (...)

Autores
Vânia Rodrigues
Isabel Mafra
Joana S. Amaral

CIMO, LA SusTEC, Instituto
Politécnico de Bragança
REQUIMTE/LAQV, Faculdade de
Farmácia, Universidade do Porto
 

Leia o artigo completo na TecnoAlimentar 45, outubro/ dezembro 2025, dedicada ao tema "Suplementos alimentares: Benefícios e autenticidade"

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