Os problemas e desafios de sempre

carne

Por Manuel Rui F. Azevedo Alves, DIRETOR

Professor Coordenador, Grupo de Engenharia Alimentar, Instituto Politécnico de Viana do Castelo

Foto: Campicarn

Ao ler os artigos que compõem o número 15 da TecnoAlimentar, podem destacar-se alguns aspectos importantes e contrastantes relativos à área alimentar, quer em Portugal, quer no Mundo.

Trata-se de artigos isolados, é verdade, mas que, por abordarem temas transponíveis para vários sectores da área alimentar, podem ser usados para fazer algumas generalizações.

A partir de um artigo sobre um mercado Moçambicano, podem generalizar-se as condições precárias de mercados alimentares típicos de muitos países Africanos, Asiáticos e de parte da Oceania e, consequentemente, de uma grande parte da população mundial.

É importante ter a noção de que a maioria da população mundial tem mercados onde os alimentos estão expostos a todo o tipo de sujidade, sem protecção contra insectos, roedores e outros animais, sem disponibilidade de água potável, sistemas de frio, etc.

Em contraponto, em países Europeus e Norte-Americanos – e Portugal é disso um bom exemplo, tal como também se vê nesta revista – o cuidado com as condições higiénicas na distribuição e nos locais de comercialização alimentar é enorme e bem-sucedido.

Por outro lado, nesses mercados menos desenvolvidos procuram-se alimentos autênticos, enquanto nos países mais desenvolvidos, as empresas e as universidades despendem tempo e recursos financeiros na investigação e desenvolvimento de novos produtos, porque os clientes se cansaram de alimentos naturais e clamam, por vezes sem qualquer critério, por mais novidades.

O enfoque dado neste número às raças autóctones mostra que nos comparamos muito mal com outros países que souberam proteger os seus produtos e marcas, conseguindo aumentos constantes das suas produções, enquanto o caso Português é desencorajante.

Por exemplo, no sector das carnes, verifica-se que se importam grandes quantidades dos "quatro cantos do mundo", enquanto a carne proveniente de raças autóctones portuguesas, de muito elevada qualidade, tem tendência a desaparecer, ao ponto de serem perigosamente baixos (nalguns casos próximos da extinção) os números de animais reprodutores.

Num país que precisa de reocupar o interior e redescobrir as actividades agro-pecuárias e florestais, mais não seja como forma de protecção, este aspecto é altamente preocupante, já para não falar na preocupação que deveria ser permanente em proteger, valorizando, todas as raças autóctones.

Neste número também é possível ver que os fóruns sobre a indústria alimentar continuam a fazer um retrato de Portugal onde, vezes sem conta, se detecta a necessidade de formação e inovação, bem como de apostas na qualidade e na internacionalização.

Repete-se a necessidade de políticas integradoras para o sector agro-industrial, que representa um volume de negócios de 16000 milhões de euros e que emprega 111000 pessoas. Mas, seminário após seminário, fórum após fórum, as constatações e os avisos que se vão repetindo, parecem ser inconsequentes, talvez porque não existe um veio agregador para todo o sector.

Quanto à formação, sempre abordada em qualquer fórum, posso acrescentar um pouco mais do que aquilo que se constata nesta revista. Há um progressivo abandono do ensino na área alimentar e da procura por esse ensino. Muito desse abandono relaciona-se com políticas de ministérios mal fundadas, que nunca entenderam que a engenharia alimentar necessita de estudantes com competências em química e a biologia, ao contrário dos restantes engenheiros que necessitam, na sua maioria, de competências nas áreas da física e matemática, causando um divórcio entre as competências e as apetências dos estudantes.

Como consequência, as formações na área alimentar ficam cada vez menos apelativas, de tal modo que o número de técnicos formados para o sector está em níveis perigosamente baixos. Aqui, Portugal compara-se muito mal com os seus parceiros europeus, que possuem um ensino pujante, altamente qualificado, que garante às indústrias os técnicos capazes de enfrentar os desafios da qualidade e da competitividade.

Assim, neste número da TecnoAlimentar, vamos constatando os mesmos problemas e desafios de sempre: a necessidade de uma política integrada para o sector agro-alimentar, incluindo a indústria e a educação, que nos coloque, senão como os melhores, pelo menos numa estratégia que nos permita aproximar dos nossos parceiros e dos nossos concorrentes.

Para terminar, e porque também passei os olhos pelos catorze números desta revista já publicados, tenho de destacar desde já o facto de que no próximo número, o da TA16, se completarão 16 trimestres (ou 4 anos), da existência desta publicação.

Nota: Editorial da edição n.º 15 da Revista TecnoAlimentar.

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